Yoro (2016), de Marina Perezagua

Yoro

«Concluí que, se tivesse de escolher um nome para nós, escolheria “os que trazemos a bomba dentro de nós”, dado que a manhã em que um bombardeiro B-29 lançou o Little Boy em Hiroxima foi só o início da detonação. Noventa por cento de todo o mal que sofreríamos, nós, os sobreviventes, iria sendo doseado minuto a minuto, mês a mês, ano a ano, emprenhando-nos desse mal que, se fosse abortado, seria só para nos abortarmos com ele.» “Yoro” é uma odisseia assombrosa pelos lugares mais profundos e negros da mente humana. Ecoando Dom Quixote, Wim Wenders e Herzog na sua tensão narrativa, este romance é a busca de uma mulher por identidade, justiça, compaixão e maternidade. H, a narradora e protagonista, confessa um crime nas primeiras páginas. E, em tom desafiante, continua, pedindo ao leitor que se atreva a ler a sua história, a sua confissão. H nasce em 1945, no momento da explosão da Little Boy sobre Hiroxima. Anos depois H conhece Jim, um soldado norte-americano que procura, desde a guerra, uma criança que lhe foi entregue e depois retirada: Yoro. Apaixonados, percorrem o mundo seguindo as mais ténues pistas, até que, na viagem final, a verdade — complexa e perturbadora — revela o crime de H e a sua razão. Torrencial, cru, pendendo entre polos opostos — amor e desespero, encontro e confusão, descoberta e prisão —, “Yoro” carrega nas suas páginas o caos pós-Segunda Guerra Mundial, o encontro frontal com a sexualidade e o mundo, a violência da linguagem e da lógica.

Apreciação

Quando ‘Little Boy’ chegou a Hiroshima, roubando a vida de 200.000 pessoas, esta criança sobreviveu. Deformada fisicamente e transtornada emocionalmente para além de reparo, absolutamente sozinha numa cidade irreconhecível, H adopta o nome da bomba do final da Segunda Guerra Mundial. Tudo na sua vida começa ali, naquele momento. Tudo lá vai dar e tudo lá termina. Ao narrar a sua vida e as décadas que se seguiram à explosão, esta personagem envolve-nos naquela que é a busca da sua identidade e a compreensão do Eu, ao mesmo tempo que perfilha como sua a…

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