Os dias do abandono (2002), de Elena Ferrante

cronicas_mal_amor

«Ferrante disse que gosta de escrever histórias “em que a escrita é clara, honesta, e em que os factos — os factos da vida normal — prendem extraordinariamente o leitor”. Com efeito, a sua prosa possui uma clareza despojada, e é muitas vezes aforística e contida (…). Mas o que os seus primeiros romances têm de electrizante é que, ao acompanhar complacentemente as situações desesperadas das suas personagens, a própria escrita de Ferrante não conhece limites, está ansiosa por levar cada pensamento para diante, até à sua mais radical conclusão, e para trás, até à sua mais radical origem. Isto é sobretudo óbvio na forma destemida como os seus narradores femininos pensam sobre filhos e sobre maternidade.»
Do Prefácio de James Wood

Apreciação

‘Os dias do abandono’ é uma das novelas incluídas no livro ‘Crónicas do mal de amor‘. Esta edição portuguesa reúne, pois, três livros publicados separadamente em Itália, o que significa que ando a ler esta compilação há alguns meses. Uma história de cada vez para fazer o livro durar porque, em breve, não terei mais romances da autora para ler. E cada vez me convenço mais de que esta autora é um portento.

Um casal. Dois filhos. Um cão. Uma separação. Os ingredientes ideais para aquele que poderia ser apenas um romance sobre problemas domésticos. Sobre um divórcio. Sobre a dor da perda amorosa. Mas não, com Elena Ferrante nada é apenas algo. Com Elena Ferrante, qualquer história está cheia de pormenores gráficos, precisos e cirúrgicos e qualquer personagem poderia estar a viver a vida do nosso colega do lado. Porquê? Porque esta história é sobre o descontrolo. Sobre a perda de sentido na vida. Sobre uma doença psicológica disfarçada de dor (ou o contrário). Sobre a incapacidade de tomar as rédeas e de lidar com um dos maiores medos da sua vida. Neste caso, para Olga o inimaginável era ser deixada pelo seu marido e foi precisamente isso que aconteceu. A partir do momento em que Mario fecha a porta de casa, deixando-a cheia de interrogações, tudo se desmoronou.

O círculo de um dia vazio é brutal e à noite ele aperta o teu pescoço como um laço.

O que é incrível neste livro não é a história per se, mas a forma como é contada. Ferrante é sublime na arte de contar histórias e, em ‘Os dias do abandono’, somos guiados através de uma narrativa doentia, claustrofóbica e desconfortável. Como a autora sabe que a solidão pode enlouquecer (e assumo isto pela destreza com que construiu o fio condutor), é precisamente por esse caminho que nos leva: a personagem fica nua de preconceitos e nós tornamos-nos nela. Olga decide não sofrer porque é melhor do que o marido. Não havia de ser como a pobre-dela, a vizinha de há 30 anos que chorava noite e dia pelo marido que a abandonou. Não havia de se rebaixar. Mas não resistiu ao sofrimento. Tentou colocar os seus filhos em primeiro lugar, mas a dor insistia em a destruir. Olga deixou de pensar, de ouvir, de sentir. Acordava por momentos para se aperceber onde estava e o que fazia. Lembrava-se que era responsável por duas crianças. Mas o acordar para a realidade foi sempre breve e doloroso e, a certa altura, era já incapaz de se identificar em determinadas situações e em recordar alguns momentos. A loucura. A dor.

E, mais uma vez, Ferrante deixa o leitor ansiar pelo final. Quem leu A amiga genial provavelmente reconhece isto. Quantos finais possíveis tem Os dias do abandono? Muitos, e todos eles bastante diferentes entre si. Então Ferrante surpreende-nos novamente: a semelhança com a realidade não é pura coincidência.

Se gostou do livro, não perca o filme (2005) realizado por Roberto Faenza.

Advertisements