Babilónia (2018), de Yasmina Reza

Babilónia

Babilónia aqui (como no salmo) é o tempo presente, lugar ou momento de perda, distante de um passado ideal. Tudo começa com uma festa de primavera em casa de Elisabeth e Pierre. Os convidados são sobretudo casais de meia-idade e, de entre eles, os vizinhos de cima formam o mais singular: o homem, Jean-Lino, de ascendência italiana e judaica, é uma pessoa comum, tímida, que conversa frequentemente com a vizinha de baixo; a mulher, Lydie, é uma figura exuberante que canta jazz num bar e é terapeuta em variadíssimas disciplinas new-age. Ainda que tão diferentes, parecem ser um casal relativamente equilibrado e feliz. A noite avança e com ela a festa, bem como a nossa observação dos convivas e seus comportamentos, acentuados pelo álcool, pelo desejo ou pela ocasião social. De madrugada, muito depois de a festa acabar, Jean-Lino acorda os vizinhos de baixo e anuncia-lhes o que aconteceu. Podemos dizer que toda a obra de Yasmina Reza (dramatúrgica e ficcional) é uma tentativa de resgatar a existência humana da sua pequenez e insignificância, da solidão e do abandono, da sua falta de sentido. E, enquanto nos faz observar (quase radiograficamente) os outros, faz-nos ver como somos e rir de nós próprios.

Apreciação

Realismo. Ao terminar de ler este livro, que discuti com quem o leu ao mesmo tempo que eu, foi esta a palavra que me ocorreu para o descrever. Realismo.

Yasmiza Reza conta-nos a história de uma mulher da casa dos sessenta, Elisabeth. Longe de ser uma heroína, uma mulher carismática irresistível ou alguém que se destaca por feitos extraordinários, Elisabeth é… normal. Ouvindo a história na primeira pessoa, o leitor depressa ficará a conhecer esta sexagenária encantadora, as suas características mais marcantes e as suas fragilidades. Podemos pensar nela como uma das senhoras que vive na casa ao lado, com um passado inquestionável e um dia-a-dia tranquilo. É isso que Reza pretende: colocá-la na mais doméstica e banal das vidas, à medida que prepara uma situação que deixará a protagonista desamparada e com um enorme dilema moral.

À medida que a história avança, começamos a conhecer ainda melhor Elisabeth: a angústia de não ter copos suficientes para os convidados que receberá em sua casa, a ansiedade por admitir que não será intelectualmente interessante (ou suficiente) para lidar com os seus convidas ou os juízos de valor que faz de si para si ao observar quem a rodeia nesse encontro social, privado. E aquilo que nos parece ser uma situação normal rapidamente ganha novos contornos quando Elisabeth descobre que um dos seus vizinhos, Jean-Lino, de quem é relativamente próxima, mata a sua mulher. Estamos, portanto, perante um dilema moral: como agir?

É precisamente aqui que a história ganha uma nova cor, dado que a Elizabeth e o seu vizinho estão longe de ser personagens heróicas. Aqui o realismo impera. Estas são pessoas banais. E começa, então, a reflexão, a tentativa de resolução e as decisões. Boas e más. Sim, porque, repito, são ambos personagens normais. Ficamos a conhecer o relacionamento entre eles e mais: a sua vida, o seu relacionamento e o que os aproxima. Porque uma decisão não é tomada sem que haja contexto: qualquer decisão é resultado da experiência da pessoa, da dor que sofreu, dos sucessos que alcançou, do seu contexto familiar, do seu círculo social, e muito mais. Seja boa ou má, ainda que esta tenha boas intenções, a decisão é fatal para que as consequências se determinam imediatamente. E é isto que é tão encantador em Babilónia: pessoas boas que fazem coisas más tornam-se más pessoas? São as nossas decisões que nos definem? Será antes o nosso passado? Yasmina Reza deixa-nos essa questão e não nos dá a resposta.

Sobre o livro:

  • Editor: Quetzal Editores
  • Publicação em Português: 06/2018
  • Publicação no original: 08/2016
  • Páginas: 176
  • Classificação Temática: Literatura – romance
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