Admirável Mundo Novo (1932), Aldous Huxley

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Publicado em 1932, Admirável Mundo Novo tornar-se-ia um dos mais extraordinários sucessos literários europeus das décadas seguintes. O livro descreve uma sociedade futura em que as pessoas seriam condicionadas em termos genéticos e psicológicos, a fim de se conformarem com as regras sociais dominantes. Tal sociedade dividir-se-ia em castas e desconheceria os conceitos de família e de moral. Contudo, esse mundo quase irrespirável não deixa de gerar os seus anticorpos. Bernard Marx, o protagonista, sente-se descontente com ele, em parte por ser fisicamente diferente dos restantes membros da sua casta. Então, numa espécie de reserva histórica em que algumas pessoas continuam a viver de acordo com valores e regras do passado, Bernard encontra um jovem que irá apresentar à sociedade asséptica do seu tempo, como um exemplo de outra forma de ser e de viver. Sem imaginar sequer os problemas e os conflitos que essa sua decisão provocará. Admirável Mundo Novo é um aviso, um apelo à consciência dos homens. É uma denúncia do perigo que ameaça a humanidade, se a tempo não fechar os ouvidos ao canto da sereia de uma falsa noção de progresso.

Apreciação

Depois de ter devorado 1984, de George Orwell, foram bastantes os leitores que me perguntaram se já tinha lido o Admirável Mundo Novo, de Aldous Huxley. Não é de admirar que haja uma enorme ligação entre os dois livros, reconhecidos por serem das distopias nascidas da literatura mais conhecidas e discutidas, embora possuam abordagens com características marcadamente diferentes e tenham sido publicados em décadas díspares: 1984 em 1949, e Admirável Mundo Novo em 1932. Esta relação entre os livros é fruto de estudos e originou obras académicas. Um dos livros mais recentes sobre o tema talvez seja Comparações entre 1984 e Admirável Mundo Novo, de Carlos Scopelly, no qual o futuro é analisado ao pormenor em cada uma destas realidades: o que as aproxima e as separa é uma das grandes questões de leitores de distopias.

Há algo que se identifica rapidamente: o controlo absoluto e a falta de liberdade são as características mais marcantes em ambos. Se, em Orwell, o controlo é indubitavelmente visível aos olhos dos cidadãos, porque o Big Brother está presente em todo o lado, em Huxley este controlo já é tão intrínseco na sociedade criada para a sobrevivência da humanidade que os cidadãos deixaram, a certa altura, de conhecer o conceito. Aquilo que se passa no chamado admirável mundo novo é precisamente a criação da sociedade perfeita que se autossustenta e que elimina qualquer hipótese de conflito, seja ele bélico, político, social, partidário, emocional, entre outros. Para tal, ao longo de séculos foram implementados inúmeros procedimentos para o desenvolvimento e alcance da situação ideal: as fábricas de humanos criam pessoas em vários escalões sociais. Os alfas são os exemplares, donos do mundo; seguem-se-lhes os betas, os ómegas, por aí fora, que nascem para cumprir a função para que foram desenhados. Os últimos da lista são os epsilões quase-abortos, as pessoas deformadas e não-pensantes que desempenham as tarefas sujas e árduas. Seja qual for o nível social, as pessoas nascem para cumprir os seus objectivos, ser felizes e morrer. São condicionadas desde a concepção embrionária para que não questionem a sua existência. São condicionadas durante o sono durante anos a fio para que não questionem a sua existência. São condicionadas para que cumpram o seu destino – um destino palpável, definido burocraticamente.

Isto levanta questões morais, obviamente. O livre-arbítrio, ou a falta dele, é precisamente a grande questão. A título exemplificativo: há uma personagem que, ao longo do livro, percebe que tem um defeito de fabrico porque consegue questionar-se e sentir emoções que os outros não conseguem. O amor-livre, presente nesta sociedade, é algo que não é concebível para este homem bem posicionado na comunidade. Acompanhamos, pois, desde cedo, os dramas existenciais de Bernard, pois não se considera igual aos demais. E, portanto, outra dúvida surge rapidamente na mente do leitor: será este um grande homem, como tentou ser Winston em 1984? Será que é ele que vai fazer a diferença? Ou será que quer apenas pertencer? Até que ponto a lavagem cerebral ao longo de toda a sua vida o vai influenciar para que disfarce os seus defeitos?

No que respeita à sociedade sem mães e pais, à fábrica de humanos, ao usufruto da felicidade plena, ao condicionamento intelectual e emocional, o embate acontece cedo na leitura. A entrada nesta realidade é abrupta e sem piedade, mas facilmente o leitor consegue entender o que por ali se passa: é assim, ponto final. Contudo, há um outro momento em que acontece outro impacto igualmente forte. Há, finalmente, uma visita àquilo a que chamam Reserva de Selvagens, onde existe uma comunidade que vive livre. Não que se possa dizer que se trata de uma realidade que se assemelhe à nossa porque, em comparação, os seus habitantes parecem ser aborígenes, mas o impacto acontece precisamente porque, subitamente, surge um termo de comparação: há mulheres que se reproduzem (um horror), há o conceito de família, há um envelhecimento natural do corpo (rugas, dentes descuidados, obesidade – tudo o que foi eliminado da sociedade fora da reserva). E isto, num entrada súbita, faz com que o leitor possa aperceber-se da diferença horrenda entre a vida com liberdade e a vida sem ela, sobretudo porque esta é uma palavra (e um conceito) que não é perceptível pelos habitantes do admirável mundo novo.

A ciência é a nova religião. Nada se atravessa à sua frente. Não há dúvidas, questões, ideias, manifestações, alternativas. A ciência é a estrutura, o fio condutor e a razão. E, quando há algo que é gerido pelos intocáveis e a razão não pode ser pensada, a sociedade está condenada a ser dirigida cegamente, a direito, sem distracções, num caminho aparentemente seguro mas que, a longo prazo e numa perspectiva macro, retira às pessoas a sua humanidade. Neste contexto, embora me pareça que a dimensão deste livro está longe da grandeza de 1984, e não querendo com isto encaminhar a conversa para a definição de que realidade está mais próxima de acontecer, a verdade é que Huxley criou este universo paralelo que se tornou intemporal. Por todos os motivos, este é um livro de leitura obrigatória.